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Blog de luís roberto carvalho
 


Não é de hoje que os paulistanos convivem em maior ou menor grau com o problema da degradação urbana ocorrida no centro da cidade. São vários os fatores, entre eles, o descaso do poder público, que deu espaço para que se instalasse uma especulação imobiliária que esvaziou a população do centro, levando a uma ocupação perpetuada pelo tráfico e consumo de drogas e a criação da chamada Cracolândia.

A Cracolândia é um fenômeno social consolidado pela falta de uma estrutura social digna; determinada pela ausência do Estado e sempre vista apenas de longe por prefeitos displicentes que achavam se tratar, sobretudo, de um caso de polícia, investindo apenas num programa de patrulhamento repressivo.

O tempo nos mostra que essa ação não tem dado certo, coisa que até a Secretaria de Segurança mostra entender da mesma forma.

O que vemos é que o assunto é muito mais complexo do que um simples caso de polícia; tratando-se de uma questão de saúde pública. Da relação entre o descaminho de um estado de bem-estar social; a corrupção e o enriquecimento ilícito que mistura a noção de público com o privado; chegando à corrupção dos valores físicos e mentais causados pela miséria e pelo consumo do crack, droga que se mostra a verdadeira Caixa de Pandora humana.

A forma de gestão do poder público não possibilita um diálogo multilateral entre suas secretarias para resoluções de problemas complexos como o atual. Sem essa visão multilateral e multidisciplinar, fica difícil sanar distúrbios sócio-estruturais, e só dão espaço para medidas paliativas de curto prazo, que apenas maquiam a aparência, mas não sanam o problema pela raiz.

Então assistimos a ações dignas, mas de final lastimável devida a essa falta de interlocução entre as instituições públicas. Um grande aparato policial faz uma ação, que merece aplausos pela maneira como atuaram, lotam um ônibus com usuários de crack, que são levados para instituições de assistência social que nem ao menos haviam sido avisados de tal operação. De forma que os usuários que haviam escolhido por um tratamento são jogados novamente na rua.

Em reação a essas políticas que privilegiam o retorno de marketing de suas ações em detrimento do resultado real obtido, assistimos à degradação urbana e humana do centro.

O governo municipal tem uma tradição de querer disfarçar; expulsar o lado feio de nossa realidade desigual, fazendo uso de ações desesperadas e desordenadas. E enquanto realizam a expulsão sumária dos viciados da Cracolândia, vemos que aumenta a violência nos bairros vizinhos: Santa Cecília, República, Vila Buarque, etc.

Essas pessoas não são como a sujeira, que pode ser varrida para baixo de um tapete qualquer, elas necessitam de estruturas de saúde onde possam se reabilitar, partindo de um tratamento clínico e psiquiátrico, para sublimação do vício por essa droga tão letal. Elas precisam de ações conjuntas e concretas entre as secretarias de segurança, saúde e assistência social, sempre coordenada pela prefeitura e o estado.

O centro precisa de uma renovação, mas uma renovação real, não de fachada, não uma renovação cenográfica.

O poder municipal, estadual, federal, tem o dever de criar alternativas para resolução efetiva desses tipos de problema, que são fruto da extrema desigualdade social em que vivemos. E ela, a desigualdade, por se fazer tão visível e evidente, acaba por virar o maior de todos os clichês da crônica nacional.

É criando medidas conjuntas entre suas secretarias que um dia esses problemas serão resolvidos, e não gastando dinheiro em obras de sanitarização urbana, em que miseráveis são vistos e tratados como dejetos que devem ser eliminados para as periferias da cidade.



Escrito por luís roberto carvalho às 10h56
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